A cidadezinha de Muritiba aparece como um
ponto de alfinete nos maiores mapas da Bahia. Pouco acontece por ali, mas
num dia qualquer de 1847, nasceu Antônio Frederico de Castro Alves,
considerado o maior poeta do romantismo brasileiro. Ele conseguiu com o
seu Navio Negreiro colocar em poema a dor de Deus. Castro Alves chorava em
versos a sorte de milhões de negros que, arrancados de sua pátria, seguiam
feito bichos, para um inferno humano. Não consigo lê-lo sem que alguns de
meus músculos se retesem e que minha boca seque.
Era um sonho
dantesco... o tombadilho Que das luzernas avermelha o brilho. Em
sangue a se banhar. Tinir de ferros... estalar de açoite... Legiões
de homens negros como a noite, Horrendos a dançar...
Senhor Deus
dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura... se é
verdade Tanto horror perante os céus?! Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas De teu manto este borrão?... Astros!
noites! tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares,
tufão! Quem são estes desgraçados Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala, Se a vaga à pressa resvala Como
um cúmplice fugaz, Perante a noite confusa... Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...
Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me
vós, Senhor Deus, Se eu deliro... ou se é verdade Tanto horror
perante os céus?!... Ó mar, por que não apagas Co'a esponja de tuas
vagas Do teu manto este borrão? Astros! noites!
tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão!
...
Retirados os nossos freios morais e de posse de poderes
absolutos, podemos nos tornar monstros de perversidade e iniqüidade. A
própria religião já produziu horrores. Assim Will Durant descreveu a
tortura da Inquisição Católica: “a vítima era imobilizada e depois
vertiam-lhe água na garganta até quase sufocá-la; outras vezes amarravam
cordas em volta dos braços e das pernas que iam sendo apertadas a ponto de
cortarem a carne até o osso. Podia ser flagelado com um ou 200 açoites até
“o limite de segurança”. Chegados à praça preparada para a execução, os
que tinham confessado eram estrangulados, depois queimados; os
recalcitrantes eram queimados vivos. As fogueiras eram alimentadas até não
sobrar nada dos mortos além das cinzas, que eram espalhadas por campos e
rios. O padres e os espectadores voltavam para seus altares e lares,
convencidos de que se tinha feito uma oferenda propiciatória a um Deus
insultado pela heresia”.
Há uma cena no filme a Lista de Schindler
que causou asco. Um graduado nazista pratica tiro ao alvo em um indefeso
judeu que, feito animal selvagem, corre para se salvar. Quantas
atrocidades anônimas aconteceram nos últimos cinqüenta anos? Não há como
se imaginar o genocídio de Ruanda. Nossas mentes não conseguem recriar
cenas em que até religiosos orquestram a morte de mais de oitocentas mil
pessoas em meros 45 dias. E o que dizer do extermínio do Khemer Vermelho
que transformou o Camboja em um vasto cemitério a céu aberto?
Quando o meu Nordeste padece sem água, o povo olha para o céu
limpo, sem qualquer prenúncio de se cumprir a promessa de que chuva cairá
sobre justos e injustos. Luis Gonzaga cantou o lamento nordestino em sua
monumental Asa Branca: “Quando olhei a terra ardendo, como fogueira de São
João, perguntei a Deus do céu: Ai. Por que tamanha judiação?” O flagelo da
miséria nordestina é vasto e inclemente. Eu já vi o enterro de anjinhos –
meninos e meninas que morrem em conseqüência, muitas vezes, da fome e da
injustiça social do Ceará. Sempre me senti anestesiado ao ver como meninos
e meninas se acostumam prematuramente com o sofrimento. São as próprias
crianças que carregam o defunto infantil numa caixa de sapatos.
Diante de tanto horror queremos evitar a realidade de que vivemos
em um mundo violento, bárbaro, sanguinário e inclemente. Aliás, nem os
vocábulos e nem as artes conseguem expressar o tamanho da nossa
perversidade. Assim como a Guernica de Picasso não consegue retratar a
maldição de uma guerra, nem Roots mostrou o quanto sofreu Kunta Kinte, o
filme A Paixão de Cristo do Mel Gibson não exauriu o tamanho do sofrimento
de Jesus.
Mas todos precisamos assisti-lo. Pelo bem da humanidade,
A Paixão precisa ser levada a sério. Não vejo no filme a violência pela
violência e acredito que o trabalho de Gibson não pode ser jogado na vala
comum dos vulgares.
Jesus não apenas padece por nós, mas como nós.
Em seu sofrimento está o sofrimento humano. Gibson retrata a dor
particular de Maria que como muitas mães negras viram seus filhos
apanhando no chicote dos fazendeiros ricos. Sobreposta às suas lágrimas
está o riso de soldados que, donos de todo o poder político, surram seu
filho até se cansarem. A macro política que gera o desdém do Procurador
romano para com a ralé colonizada, vale mais que a sensibilidade de uma
esposa que tenta chamar seu marido a um mínimo de bom senso.
Por
que as pessoas não gostam de assistir as trinta e nove chicotadas do
flagelo romano? Porque não querem reconhecer a tragédia humana e nem
imaginar um Deus frágil e impotente. Não admitimos que em última análise
somos os responsáveis por nos tornarmos predadores de nós mesmos. Ver o
Filho do Homem impotente não condiz com nossas expectativas religiosas.
Desejamos um Deus que prefira valer-se de seu poder para corrigir as
injustiças, que se insurja contra os poderosos e que controle a sanha dos
ímpios. É mais confortável esperarmos que ele se levante e vingue nossa
maldade, nos isentando do mandato humano de promovermos o bem.
Ver
o filme de Gibson foi uma experiência marcante para mim. Primeiro, porque
me lembrou que minha salvação não foi barata. Confrontado pelo preço que o
Cordeiro de Deus pagou, não quero esse “evangelho gasoso” proclamado nos
“shows gospel” da pós-modernidade. Sentado confortavelmente na poltrona do
cinema, recordei-me de suas palavras em Lucas 9:23-24: “Se alguém quiser
acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me.
Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder a sua vida
por minha causa, este a salvará”.
Mas lembrou-me também do
sofrimento dos pobres nordestinos, dos exilados e aidéticos africanos e de
tantas mães que choram seus filhos em sepulturas rasas. Quando entraram os
letreiros finais do filme, levantei-me cabisbaixo e em silêncio.
Perguntava-me a mim mesmo: “Até que ponto estou disposto a sofrer pela
causa de Jesus Cristo?” Paulo convidou Timóteo a suportar as aflições como
bom soldado da cruz, pois queria lembrar seu discípulo que para seguir o
Caminho, ele necessitaria se dispor a encarnar a missão de Jesus. A
pergunta ressoa teimosamente: Quantos querem partilhar a sorte dos que
gritam desesperados nesse imenso mar de lágrimas que se transformou o
viver humano?
Ricardo Gondim
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