O coração do homem considera o seu caminho, mas o Senhor lhe
dirige os passos. [Provérbios 16. 9]
Gente
com Rosa na Lapela
Max
Lucado
John
Blanchard levantou-se do banco, ajeitou o uniforme do Exército e
observou a multidão que tentava abrir caminho na Estação Ferroviária
Central de Nova York. Procurou avistar a moça cujo coração ele
conhecia, mas não o rosto — a moça com a
rosa.
Seu
interesse por ela começara 13 anos antes, em uma biblioteca da
Flórida. Ao retirar um livro da estante, ele ficou intrigado, não
com as palavras impressas, mas com as anotações escritas à mão na
margem. A letra delicada indicava ser a de uma pessoa ponderada e
sensível. Na primeira página do livro, ele descobriu o nome da
proprietária anterior: Srta. Hollis
Maynell.
Depois
de algum tempo e de várias tentativas, conseguiu localizar o
endereço dela. Morava em Nova York. Escreveu-lhe uma carta
apresentando-se e propondo uma troca de correspondência. No dia
seguinte, ele foi convocado para servir em uma base do outro lado do
oceano. Era a Segunda Guerra Mundial. Durante os 13 meses seguintes,
os dois passaram a se conhecer por correspondência. Cada carta era
uma semente caindo em um coração fértil. Florescia um romance.
Blanchard pediu uma fotografia, mas ela recusou-se a enviá-la.
Achava
que, se ele realmente gostasse dela, não haveria necessidade de
fotografia.
Quando
ele retornou da Europa, marcaram o primeiro encontro às 19 horas na
Estação Ferroviária Central de Nova York.
“Você
me reconhecerá”, ela escreveu, “pela rosa que estarei usando na
lapela.”
Assim,
às 19 horas, Blanchard estava na estação à espera da moça cujo
coração ele amava, mas cujo rosto nunca vira. Deixemos que o próprio
Blanchard conte o que aconteceu.
Em
minha direção vinha uma jovem alta e esbelta. Seus cabelos loiros
encaracolados caíam pelos ombros, deixando à mostra delicadas
orelhas; os olhos eram azuis da cor do céu. Os lábios e o queixo
tinham uma firmeza suave; trajando um costume verde-claro, parecia a
própria chegada da primavera. Comecei a caminhar em sua direção sem
notar que não havia rosa em sua lapela. Quando me aproximei, um
sorriso leve e provocante brotou-lhe nos
lábios.
—
Gostaria de me acompanhar, marujo? — ela murmurou. De maneira quase
incontrolável, dei um passo em sua direção, e foi então que avistei
Hollis Maynell.
Ela
estava em pé atrás da jovem. Aparentava bem mais de 40 anos, e seus
cabelos, presos sob um chapéu surrado, deixavam entrever alguns fios
brancos. Seu corpo era roliço, tinha tornozelos grossos e usava
sapatos de salto baixo. A moça de costume verde-claro distanciava-se
rapidamente. Senti-me dividido, desejando ardentemente segui-la,
mas, ao mesmo tempo, profundamente interessado em conhecer a mulher
cujo entusiasmo me acompanhara e me
sustentara.
E
lá estava ela. Seu rosto redondo e pálido estampava delicadeza e
sensibilidade; os olhos cinzentos irradiavam meiguice e bondade. Não
hesitei. Peguei o pequeno livro azul, de capa de couro, para me
identificar. Não seria um caso de amor, mas poderia ser algo
precioso, algo talvez melhor que amor, uma amizade pela qual eu era
e seria eternamente grato.
Endireitei
os ombros, cumprimentei e entreguei o livro à mulher, apesar de
sentir-me sufocado pela amargura de meu desapontamento enquanto lhe
dirigia a palavra.
—
Sou o tenente John Blanchard, e você deve ser a Srta. Maynell. Estou
satisfeito por você ter vindo encontrar-me. Aceita um convite para
jantar?
No
rosto da mulher surgiu um sorriso largo e
bondoso.
—
Não sei do que se trata, filho — ela respondeu —, mas a jovem de
costume verde, que acabou de passar por aqui, pediu-me que usasse
esta rosa na lapela. Instruiu-me também que, se você me convidasse
para jantar, eu deveria dizer que ela está à sua espera no
restaurante do outro lado da rua. Ela me contou que se tratava de
uma espécie de teste!
Não
é difícil compreender e admirar a sabedoria da Srta.
Maynell...
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