Perseguições Papais
Até agora, nossa história sobre as perseguições
limitou-se principalmente ao mundo pagão. Chegamos, então, a um
período em que a perseguição, sob a roupagem do cristianismo,
cometeu atrocidades piores que as que infamaram os anais do
paganismo.
Ao deixar de lado as máximas e o espírito do
Evangelho, a igreja papal, armada com o poder da espada, humilhou a
Igreja de Deus e devastou-a durante vários séculos, num período
apropriadamente conhecido como “a idade das trevas”. Os reis da
Terra deram o seu poder à “Besta”, e sujeitaram-se a ser pisoteados
pelas miseráveis artimanhas que amiúdo ocuparam o trono papal, como
no caso de Henrique, imperador da Alemanha. A tempestade da
perseguição papal abateu-se primeiro contra os valdenses, na
França.
A PERSEGUIÇÃO CONTRA OS VALDENSES, NA
FRANÇA.
Após o papa introduzir várias inovações na Igreja e
cobrir o mundo cristão com trevas e superstições, uns poucos, ao
dar-se conta da tendência perniciosa de tais erros, decidiram exibir
a luz do Evangelho em sua real pureza. Empenharam-se em dispersar
aquelas nuvens estendidas por uns astutos sacerdotes, que pretendiam
cegar o povo e embaçar o seu verdadeiro
resplendor.
O principal entre estes foi Berengário que, por volta
do ano 1000, pregou denodadamente as verdades do Evangelho, segundo
sua primitiva pureza. Muitos, convencidos, concordaram com a sua
doutrina e foram, por isso, chamados berengários. Este defensor do
Evangelho foi sucedido por Pedro Bruis, que pregou em Toulouse, sob
a proteção de um conde chamado Ildefonso. Todos os pontos dos
reformadores, com as suas razões para separar-se da igreja de Roma,
foram publicados em um livro escrito por Bruis, sob o título de
“Anticristo”.
No ano 1140 de nossa era, o número de reformados era
muito grande, e a probabilidade de seu crescimento alarmou o papa.
Preocupado, ele escreveu a vários príncipes, a fim de pedir-lhes que
desterrassem de seus domínios os reformados e empregassem muitos
eruditos para escrever contra as suas
doutrinas.
Em 1147, eram chamados de henericianos, devido a
Henrique de Toulouse, seu mais eminente pregador. E, por causa da
não aceitação de religiosa, além das que se podiam deduzir das
Escrituras, o partido deu-lhes o nome de apostólicos. Ao final,
Pedro Waldo, ou Valdo, natural por sua piedade e erudição, veio a
ser um enérgico oponente do então, os reformados receberam a alcunha
de valdenses.
O papa Alexandro III, informado destes sucessos pelo
bispo de Lyon, Valdo e seus seguidores, e ordenou ao seu informante
que os varresse, se possível fosse, da face da Terra. Assim
começaram as perseguições papais contra os
valdenses.
As atividades de Valdo e dos reformados suscitaram a
primeira aparição dos inquisidores, pois o papa Inocente III
conferiu a alguns monges a autoridade de inquirirem, para que
fizessem a investigação e entregassem os reformados ao julgamento. O
processo era breve, pois qualquer acusação era considerada culpa, e
nunca se concedeu um juízo justo a um
acusado.
O papa, ao dar-se conta de que esses meios cruéis não
surtiam o efeito desejado, enviou vários monges eruditos com a
missão de pregar aos valdenses e convencê-los do erro de suas
opiniões. Entre estes havia um chamado Domingo, que se mostrou muito
zeloso da causa papal. Ele criou uma instituição que, por causa de
seu nome, foi chamada de a ordem dos frades dominicanos. Os membros
desta instituição tomaram-se, desde então, os principais
inquisidores do mundo. O poder deles era ilimitado. Levantavam-se
contra as pessoas como bem lhes parecia, sem considerar idade, sexo
ou nível social. Infames que eram, consideravam válidas quaisquer
acusações; inclusive cartas anônimas, que eram tidas como suficiente
evidência.
Ser rico era um crime equivalente à heresia. Muitos
dos que tinham dinheiro eram acusados de hereges, para que fossem
obrigados a pagar por suas
opiniões.
Os mais queridos amigos e parentes mais próximos não
podiam ajudar, sem risco, a alguém que estivesse encarcerado por
questões religiosas. Quem lhes desse até mesmo um copo de água caía
sob a acusação de favorecer os hereges, e era perseguido. Nenhum
advogado ousava defender o seu próprio irmão, e a maldade dos
inquisidores ia além da tumba: exumava-se os ossos dos mortos e os
queimava como exemplo para os vivos. Se alguém, no leito de morte,
era acusado de ser um seguidor de Valdo, suas posses eram
confiscadas, e o herdeiro, privado de sua herança. Alguns foram
enviados a Terra Santa, enquanto os dominicanos se apoderavam de
suas casas e propriedades. Estas perseguições persistiram durante
vários séculos, sob diferentes papas e outros grandes dignitários da
Igreja Católica.
Autor: John Fox
O Livro dos Mártires
Ed: CPAD