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Essas perseguições são revoltantes (porem a luta do
cristão não é contra a carne), mas acho que se alguém se diz 'cristão'
deve estar ciente dessas coisas ocorridas com os primeiros cristãos,
para medir as palavras antes de chamar um irmão na fé de: 'fracassado'
ou 'derrotado'. Se fosse nos tempos de hoje muitos diriam que estes que
morreram por amor a Cristo, não sabiam usar a fé verdadeira.
A SÉTIMA PERSEGUIÇÃO SOB DÉCIO, EM 249 D.C.
Esta
foi ocasionada, em parte, pelo aborrecimento que Décio tinha para com seu
antecessor, Felipe, considerado cristão, e também por seu ciúme diante do
assombroso avanço do cristianismo. O que ocorria era que os templos pagãos
começavam a ser abandonados e as igrejas cristãs tornavam-se
repletas. Estas
razões estimularam Décio a tentar a extirpação do nome “cristão”. E,
desafortunadamente para o Evangelho, vários erros ocorreram, nesse tempo,
dentro da Igreja. Os cristãos achavam-se divididos entre si; os interesses
próprios separavam aqueles a quem o amor deveria manter unidos; a
virulência do orgulho deu ocasião a uma série de
facções. Os
pagãos, em geral, ambicionavam pôr em ação os decretos imperiais e
consideravam o assassinato dos cristãos um mérito para si próprios. Nessa
ocasião, os mártires foram inumeráveis; relacionaremos, porém, apenas os
principais, Fabiano, bispo de Roma, foi a primeira pessoa, em posição
eminente, a sentir a severidade dessa perseguição. O falecido imperador
havia posto seu tesouro aos cuidados desse homem, devido à sua
integridade. Mas Décio, por não encontrar tanto quanto sua avareza o
fizera imaginar, decidiu vingar-se do bom prelado. Fabiano foi,
então, preso e decapitado em 20 de janeiro de 250
d.C. Julião,
nativo da Cilícia, como nos informa Crisóstomo, foi preso por ser cristão.
Posto em uma bolsa de couro, junto com várias cobras e escorpiões, foi
lançado ao mar. Pedro,
um jovem muito simpático, tanto pelo seu físico como por suas qualidades
intelectuais, foi decapitado por se recusar a sacrificar a Vênus. No
julgamento, declarou: “Estou atônito ao ver que sacrificais a uma mulher
tão infame, cujas abominações são registradas por vossos próprios
historiadores e cuja vida consistiu em ações que vossas próprias leis
castigariam. Não oferecerei sacrifício a ela, mas ao verdadeiro Deus
apresentarei a oferta aceitável de louvores e orações”. Ao ouvir isto,
Optimo, procônsul da Asia, ordenou que o preso fosse estirado na roda de
tormento, onde se lhe romperam todos os ossos. Depois, foi
decapitado. Nicômaco,
obrigado a comparecer diante do procônsul como cristão, recebeu ordens de
sacrificar aos ídolos pagãos. No entanto, ele replicou: “Não posso dar a
demônios a reverência devida somente ao Todo-Poderoso”. Esta maneira de
falar enfureceu de tal modo o procônsul, que Nicômaco foi posto no potro.
Depois de suportar os tormentos por um tempo, retratou-se. Porém, logo
depois desta prova de debilidade, entrou em agonia; tombou ao chão e
morreu imediatamente. Denisa,
uma jovem de apenas dezesseis anos, ao contemplar este terrível juízo,
exclamou: “Oh, infeliz, para que comprar um momento de alívio à custa de
uma eternidade de misérias?!” Ao ouvi-la proferir tais palavras, Optimo
chamou-a e, ao saber que ela também era cristã, mandou
decapitá-la. André
e Paulo, dois companheiros de Nicômaco, sofreram o martírio por
apedrejamento em 251 d.C. e morreram invocando o nome de seu
Redentor. Alexandro
e Epímaco, de Alexandria, foram presos como suspeitos de serem cristãos.
Diante da confirmação, foram golpeados com estacas, rasgados com ganchos
de ferro e, finalmente, queimados. Também nos informa um fragmento
preservado por Eusébio que quatro mulheres mártires sofreram naquele mesmo
dia e no mesmo lugar, mas não da mesma maneira; foram
decapitadas. Luciano
e Marciano, dois malvados pagãos versados nas artes mágicas,
converteram-se ao cristianismo e, para expiar os erros passados, passaram
a viver como eremitas e alimentar-se apenas de pão e água. Depois de um
tempo nesta condição, tornaram-se zelosos pregadores e ganharam muitas
almas para Jesus. Vindo a perseguição, foram presos e levados diante de
Sabino, o governador da Bitínia. Quando lhes interrogaram em nome de que
autoridade pregavam,
Luciano respondeu que “as leis da caridade e da humanidade obrigavam todo
homem a buscar a conversão de seus semelhantes e a fazer tudo o que
estivesse ao seu alcance para libertá-los dos laços do
diabo”. Havendo
Luciano respondido desta maneira, Marciano acrescentou que a conversão
deles “havia sido pela mesma graça concedida ao apóstolo Paulo, que, de
zeloso perseguidor da Igreja, convertera-se em pregador do
Evangelho”. O
procônsul, ao perceber que não podia prevalecer sobre eles no sentido de
obrigá-los a renunciar a fé, condenou-os a ser queimados vivos. A sentença
foi logo executada. Trifon
e Respício, dois homens ilustres, foram apreendidos como cristãos e
encarcerados em Nisa. Tiveram os pés traspassados com cravos; foram
arrastados pelas ruas, açoitados, descamados com ganchos de ferro,
queimados com tochas, e finalmente decapitados no dia primeiro de
fevereiro de 251 d.C. Ágata,
uma bonita dama siciliana, não era tão notada por seus dotes naturais, mas
por sua piedade. Tal era a sua formosura que Quintiano, governador da
Sicília, apaixonou-se por ela e fez muitas tentativas de vencer sua
castidade; todas, porém, sem êxito. A fim de satisfazer mais facilmente
suas paixões, colocou a virtuosa dama nas mãos de Afrodica, mulher infame
e depravada. Esta miserável usou todos os artifícios para arrastá-la à
prostituição; contudo, viu falidos todos os seus esforços, pois a
castidade de Ágata era inexpugnável, e ela sabia muito bem que só a
virtude poderia dar-lhe a verdadeira felicidade. Afrodica fez saber a
Quintiano a inutilidade de seus esforços, e este, enfurecido ao ver seus
desígnios frustrados, tornou sua concupiscência em ressentimento. Quando
Ágata se confessou cristã, ele decidiu satisfazer-se com a vingança, desde
que não podia gratificar-se com a paixão. Por ordens suas, Ágata foi
flagelada, queimada com ferros em brasa e descarnada com ganchos de ferro.
Ao suportar estas torturas com admirável força, foi posta nua sobre brasas
misturadas com vidro, e logo devolvida ao cárcere, onde expirou no dia 5
de fevereiro de 251 d.C. Cirilo,
bispo de Gortyna, foi preso por ordens de Lúcio, governador daquela
região, que o exortou a obedecer à ordem imperial, a fazer os sacrifícios
e a salvar da destruição sua venerável pessoa de oitenta e quatro anos. O
bom prelado respondeu que, como havia ensinado a outros durante muito
tempo a salvar suas almas, agora só podia pensar na própria salvação. O
digno prelado escutou, sem a menor emoção, a sua sentença, dada com furor;
caminhou animadamente até o lugar da execução e sofreu o martírio com
total integridade. Em
nenhum lugar a perseguição manifestou-se com tanta ira como na ilha de
Creta, pois o governador, sumamente ativo na execução dos editos
imperiais, fez correr rios de sangue dos piedosos
cristãos. Babylas,
um cristão com educação acadêmica, chegou a ser bispo de Antioquia em 237
d.C., depois de Zebino. Atuou com zelo incomparável e pastoreou a igreja
com uma prudência admirável durante os tempos mais tormentosos. A primeira
desgraça a ocorrer em Antioquia durante a missão de Babylas foi o cerco
orquestrado por Sapor, rei da Pérsia, que, ao invadir toda a Síria, tomou
e saqueou essa cidade, entre outras, e tratou os moradores cristãos com
maior dureza que os outros; porém, logo foi derrotado por
Gordiano. Depois
da morte de Gordiano, o imperador Décio, que o sucedeu, visitou Antioquia
e ali expressou o desejo de visitar uma comunidade cristã. Babylas opôs-se
absolutamente a isso e não permitiu a sua entrada. O imperador dissimulou
momentaneamente a ira, mas logo mandou buscar o bispo e, ao repreendê-lo
duramente por sua insolência, ordenou que sacrificasse às divindades pagãs
como expiação por sua ofensa. Ao recusar, Babylas foi deixado no cárcere,
preso em cadeias, e tratado com a maior severidade. Logo depois, foi
decapitado juntamente com três jovens que foram seus alunos. Isto
aconteceu em 251 d.C. Neste
mesmo tempo foi encarcerado Alexandro, bispo de Jerusalém, e ali morreu
devido à dureza de sua reclusão. Juliano,
um ancião aleijado por causa de uma artrite, foi atado juntamente com
Cronión a corcovas de camelos, flagelados cruelmente e logo lançados ao
fogo, onde morreram. Também quarenta donzelas foram queimadas em
Antioquia, após sofrerem encarceramento e
flagelos. Em
251 d.C., o imperador Décio, depois de erigir um templo pagão em Éfeso,
ordenou que todos os habitantes da cidade sacrificassem aos deuses. Esta
ordem foi nobremente desprezada por sete de seus próprios
soldados: Maximiano,
Marciano, Joanes, Malco, Dionísio, Seraión e Constantino. O imperador,
desejoso de que eles renunciassem a fé cristã mediante suas exortações e
apelos, deu-lhes um tempo considerável até voltar de uma expedição.
Durante a sua ausência, os bravos soldados fugiram e ocultaram-se em uma
gruta. Ao regressar e tomar conhecimento do fato, o imperador ordenou que
a entrada da caverna fosse fechada, e todos morreram de
fome. Teodora,
uma jovem e formosa dama de Antioquia, recusou-se a sacrificar aos deuses
de Roma. Foi, por isso, condenada a viver em um bordel, onde sua virtude
seria sacrificada à brutalidade e à concupiscência. Dídimo, um cristão,
entrou naquele recinto vestido com um uniforme de soldado romano,
revelou-se a Teodora e aconselhou-a a fugir disfarçada com aquela roupa,
ficando ele em seu lugar. Quando descobriram no bordel um homem no lugar
da formosa dama, Dídimo foi levado diante do governador, a quem confessou
a verdade. Ao declarar-se cristão, recebeu imediata sentença de morte.
Teodora, ao ouvir que seu libertador morreria, rogou perante o juiz e
implorou que a sentença recaísse sobre ela. Não obstante, surdo aos
clamores dos inocentes e insensível à justiça, o implacável juiz condenou
a ambos. Dídimo e Teodora foram decapitados e depois tiveram os corpos
queimados. Secundiano,
acusado de ser cristão, era levado ao cárcere quando Veriano e Marcelino
indagaram aos soldados que o conduziam: “Para onde levais um inocente?” A
pergunta fez com que também fossem presos e, após serem torturados, os
três foram pendurados e decapitados. Orígenes,
o célebre presbítero e ensinador da Palavra de Deus em Alexandria, foi
preso aos sessenta e quatro anos e largado numa imunda masmorra,
totalmente acorrentado, com os pés no cepo e as pernas estiradas ao
maximo, durante vários dias seguidos. Foi ameaçado com fogo e torturado
com todos os requintes de crueldade inventados pelas mentes mais
diabólicas. Durante o seu terrível e prolongado tormento, morreu o
imperador Décio. Gallo, seu sucessor, envolveu-se numa guerra com os godos
e, com isso, os cristãos tiveram um certo alívio. Orígenes obteve então a
liberdade e retirou-se para Tiro, onde ficou até a morte, que lhe
sobreveio aos sessenta e nove anos. Gallo,
depois de concluir suas guerras, deparou-se com uma praga no império. Ele
ordenou, então, que fossem oferecidos sacrifícios aos deuses pagãos. Esta
medida fez com que novas perseguições aos cristãos fossem desencadeadas,
desde a capital do império até as províncias mais afastadas. Muitos foram
as vítimas da impetuosidade da população, assim como do preconceito dos
magistrados. Entre esses mártires estiveram Cornélio, bispo cristão de
Roma, e Lúcio, seu sucessor, em 253 d.C. A
maioria dos erros introduzidos na Igreja, nesta época, resultou de se
colocar a razão humana em competição com a revelação. Quando, porém, os
teólogos mais capazes demonstraram a falibilidade de tais argumentos, as
opiniões que se haviam levantado desvaneceram-Se como as estrelas diante
do Sol. |